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A palavra trama tem um sentido primeiro, literal, funcional: um fio é dito “de trama” quando cruza transversalmente os fios de urdidura de um tear. Seu sentido é a função que ele desempenha: a de ligar entre si os fios estendidos no tear, de fazer dessa luz a opacidade de um tecido ou de uma tela. Mas esse primeiro sentido já é uma figura, a da lançadeira conduzindo o fio entre as urdiduras para levá-lo a bom porto. Imediatamente, a função faz imagem: a de um movimento que passa entre e que liga. A palavra tem, contudo, outro sentido, ainda funcional, embora de outra natureza: uma trama é “a estrutura que constitui a ossatura de um tecido animal”. Mais uma vez, imagens. Estas remetem à arquitetura e à tecelagem. A trama de um tecido é apenas um conjunto de fios, mas a de um tecido vivo lhe dá unidade e coesão. Este último necessita de uma trama que seja também uma ossatura, ao passo que a do tecido tecido lhe permanece exterior: corpo, muro, solo etc. Mas se a trama é aquilo que, no interior da coisa, a faz aderir a si mesma, pode-se compreender que haja, por extensão, tramas de tudo: de uma obra, de uma existência, de um dia ou de uma improvisação musical. Apenas que, nesses casos, a trama não é uma estrutura física, uma ossatura; ela é a maneira, cada vez singular, pela qual a coisa mantém unidos seus momentos ou partes, pela qual faz bloco apesar das disparidades de suas linhas. Há casos, porém, em que a trama, apesar de seu caráter lábil e processual, parece desempenhar o papel de uma ossatura.
Tomemos o exemplo do samba. Um samba é antes de tudo um fluxo rítmico. Um estranho arranjo de compassos binários e ternários, ou mais precisamente um fluxo sincopado de semicolcheias (os ganzás, chocalhos, tamborins e repiques) encaixado num ritmo binário (os surdos) e relançado pelos breaks regulares das peles. É a primeira camada, já estratificada, da trama. A segunda é atribuída ao cavaquinho, pequena guitarra de quatro cordas que completa o fluxo percussivo no registro agudo e produz a base harmônica do canto por vir. A terceira é feita dos motivos melódicos dos agogôs e das cuícas, que ajustam seu metro ímpar ao fluxo sincopado da primeira para preparar a chegada da melodia e da voz que a entoa (e dos sopros, se o samba é móvel). A primeira produz uma motricidade elementar: move-se e faz mover; a segunda fraseia; a terceira harmoniza; a quarta canta (e as quatro ritmam). A trama que compõem as três primeiras camadas é a condição do canto, o terreno musical onde ele se eleva, o ar que convém à sua respiração. A energia que dela se desprende, e que literalmente sustenta a voz, deve-se aos atritos quase imperceptíveis dos três fluxos, ao jogo entre par e ímpar, agudos e graves, melodia e ritmo, métrica binária e ternária: essas diferenças produzem uma síncope generalizada que cada linha amplifica e desloca. Tanto mais que é preciso acrescentar a essas camadas a dos dançarinos e das dançarinas. Seus movimentos nascem da trama rítmica e, de certo modo, dela participam, exteriorizam-na e a reforçam. A trama do samba é ao mesmo tempo música e dança, sons e movimentos — ou mais precisamente sons com movimentos potenciais que aguardam sua incorporação. A trama do samba é explosiva. Não tem nada de uma ossatura e, no entanto, é ela que, ao que tudo indica, sustenta o samba, assegura a coesão de sua temporalidade sincopada e seu poder de estendê-la a outros corpos.
Retomemos.
Uma trama é algo que permite a outra coisa ser o que é, mesmo que não seja visível ou identificável como tal. Ela é também e sobretudo uma ação (tecer) ou um processo (crescer). A ação supõe um agente que estende e trama, escolhe os fios e o percurso da lançadeira em função do tipo de tecido que pretende fabricar. O processo, por sua vez, é imanente: produz-se a si mesmo, ou melhor, é a própria coisa produzindo-se continuamente; é a mão, o tear, a lançadeira e o fio. Poíese contra autopoíese. Fabricação de um lado, crescimento do outro. Será assim tão simples? A trama não seria uma e outra, o movimento da mão que guia a lançadeira que conduz o fio e a estrutura viva do tecido autogerando-se? A trama do samba é ação (tocar), mas não é uma ação que fabrica: é uma ação que é ela mesma aquilo que produz, uma produção coletiva que, vista de fora, parece crescer, até proliferar quando passa por contágio ao corpo dos dançarinos e das dançarinas; está ao mesmo tempo aqui e lá, agora e dentro de um ano, outra e a mesma. Uma ação que produz uma coisa que cresce e contamina. Uma coisa que permite a uma ação multiplicar-se sem se perder ou se esgotar. A trama é uma e outra: o fio de Ariadne, a mão que desenrola o novelo e o labirinto que seus giros e desvios acabam por desenhar. Pois a trama começa de fato em algum lugar, mas ignora-se onde termina; ou melhor, ignora-se aonde nos terá levado e o pedaço de vida sobre o qual então nos voltaremos — e do qual pensávamos ter improvisado cada passo — oferecerá a nossos olhos a forma misteriosa da necessidade.
Há algo que as definições da palavra não dizem: não há trama que não conserve alguns traços das que a precederam. A trama de uma existência é também feita das vidas que a ergueram, das vidas que ela cruzou e amou, com as quais cantou, dançou, brincou, trabalhou. Assim, as tramas passam de uma existência a outra, abertamente ou secretamente, maciçamente ou por fragmentos e detalhes, transmitidas e esquecidas. Pode ser um gesto, uma maneira de falar, um fio de linho ou de lã. Mas as tramas transmitem-se e esquecem-se também coletivamente. E conservar esses traços supõe dispositivos específicos. O carnaval é um deles. Travestir-se, dançar, ocupar as ruas, avenidas e praças, tramar um samba sem fim, tornar público um desejo que se torna estase, platô, cobra que engole a própria cauda. Mas sobretudo lembrar-se dos sambas, das marchinhas e dos maracatus que outros cantaram e dançaram: basta, para isso, cantá-los e dançá-los por nossa vez; lembrar-se do passado carioca e brasileiro contando as histórias que já não se contam ou que é proibido contar — histórias para adormecer os adultos e despertar os espíritos adormecidos; lembrar-se do passado africano, indígena, europeu, há muito mestiçado, transformado, mutado, que assombra cada detalhe do carnaval: fantasias, plumas, tecidos, adornos, peles pintadas e lantejouladas — instrumentos, ritmos, ares, danças, gestos — tresillo, maxixe, tango, valsa, polca — ngoma, kalungu, sabar, curimbó — espíritos tupis e orixás. O carnaval é um dispositivo de memória tanto quanto festivo e desejante: uma máquina de traficar-transmitir os passados mais longínquos e díspares, de tramar a cada ano as cidades e aqueles e aquelas que as habitam e por elas passam, de entrelaçar tramas passadas e presentes (as vidas desfilantes) e de estender outros fios de urdidura no tear. O movimento que liga é também aquele que desliga; por isso é preciso ligar de novo, repetir a cada ano, refazer, remendar. O carnaval acolhe essas tramas; é mesmo a arte de montá-las e remontá-las. Mas elas são também o que assegura sua coesão, o que o fabrica e lhe permite crescer. O carnaval só pode ser a arte das tramas se ele próprio for tramado por fios imperceptíveis: são eles que lhe dão essa aparência moiré que muda cada vez que o atravessamos novamente, pois o carnaval é verdadeiro para todos aqueles e aquelas que o experimentam; cada perspectiva é a certa porque cada uma é um fio da trama, mesmo a da manhã da Quarta-feira de Cinzas, depois que os surdos se calaram e o tecido se rasgou. O carnaval é um desejo que recebeu o preparo da memória.
“Uma trama é algo que permite a outra coisa ser o que é”, escrevemos; mas essa coisa-outra é a própria coisa — ou melhor, essa alteridade nela que faz com que ela adira a si, justamente porque outra. Ainda é preciso acrescentar, como acabamos de mostrar, que essa trama é ela mesma feita de mil outros fios que já não sabemos distinguir, mas sem os quais não poderia cumprir sua função de tecer e de lembrar. A trama sustenta e faz passar; seu poder de coalescer é o do “trans”: ela é o que atravessa os fios de urdidura, liga o que está separado, transmite os fios que se acreditavam esquecidos, transflui os corpos, transversa os espíritos, transsoa os ritmos e, por conseguinte, transforma aqueles e aquelas que entram no jogo, que se deixam tramar pelo carnaval — isto é, transplantar para essa terra movente onde só se pode ser ao travestir-se — o que supõe que cada um e cada uma reconheça essa coisa-outra que é si mesmo e que o carnaval revela com tanta acuidade: si como trama-trans.